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quarta-feira, 14 de novembro de 2007







domingo, 11 de novembro de 2007

Boas animações e ilustrações




Boa revista




Bom para o ambiente




Bom para desaparecer




Bom para pecar




Bom para vestir. Ou despir




*Perdoem-me os fiéis da Formiga pelos sucessivos post sem consistência, mas o tempo tem escasseado

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

"So So" . Arte e Assim. Revista Mensal - Novembro 07

Prémio Sopeira

O vencedor nesta categoria foi Sir Lawrence Alma –Tadema com a obra A Difference of Opinion. O título de Sir oferecido pela rainha devido a grandes contribuições na formação dos gostos europeus terá contribuído para a atribuição deste prémio. Os membros da Academia queixavam-se disso, das pressões políticas. No final Alma Tadema agradeceu comovido: “é muito importante saber que esta obra contribuiu para que em todas as casas existisse uma cristaleira, um sofá coberto com uma manta feita em croché, um menino de loiça que se abre e faz de bule, um serviço de 24 peças de louça azul e branca com paisagens pintadas, forro em veludo verde vareja nas cadeiras e um globo gigante que se abre e transforma em bar. Quero também agradecer a Deus por esta inspiração.” A esta altura do discurso Deus, que estava na plateia ao lado de Maria Madalena para receber o prémio inspiração, levantou-se e disse: “Eh pá, não me metas nisso que eu formei-me nos melhores colégios suíços.”


Sir Lawrence Alma-Tadema
A Difference of Opinion
1896
Colecção Privada

Prémio Narcisismo
Frida Kahlo subiu ao palco a cambalear. Especulou-se que no intervalo teria emborcado meia garrafa de Pulque, mas na verdade eram as suas sobrancelhas que não lhe permitiam ver o palco. Recebeu um pouco contrariada o prémio Narcisismo. No seu discurso de agradecimento disse que só pintava a sua vida e que a sua vida tinha sido muito sofrida. Pediu ainda que fizessem passar um cestinho para angariar fundos com o objectivo de pagar as contas médicas e dirigiu-se ao director do Jornal de Notícias para este fazer um artigo sobre ela e a sua história na coluna “Cada homem é meu irmão”. No fim da cerimónia Frida tinha conseguido angariar dois palitos, 5 cêntimos e um lenço de papel muito amachucado e molhado que a pintora colocou na manga da camisola porque segundo ela “dá muito jeito”.


Frida Kahlo
My Grandparents, My Parents, and I
1936
The Museum of Modern Arts, New York


Prémio “What’s the point?”

Este ano a Academia resolveu premiar Gerhard Richter com o galardão “What’s the point”, o mais desejado da noite para além do prémio inspiração. O “What’s the Point” tem como objectivo premiar os artistas e as obras mais incompreensíveis. Os outros nomeados nesta categoria eram Mark Rothko, Sigmar Polke e Lucio Fontana e todos eles mostraram o seu desagrado com esta escolha. Richter agradeceu e disse que o prémio “é finalmente a recompensa por anos de tentativas goradas em chamar a atenção sem qualquer objectivo. Espero que no futuro o estatuto do pintor como ser iluminado, especialmente dotado e que não necessita de dar explicações nem ao Menino Jesus com a sua obra graças ao facto de ter sido dotado de uma inteligência e capacidade criativa acima da média, seja mais vezes reconhecido. Desde que seja o meu”. Deus não gostou da referência ao seu filho, o Menino Jesus, mas acalmou com um beijo fraterno de maria Madalena que envergava um Gucci em azul celeste.


Gerhard Richter

Courbet

1986

Colecção Privada, Colónia

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

"quando só vês o sexo, não vês a pessoa"


Não sou feminista, mas este é um post sobre mulheres, sobre mulheres artistas. Provavelmente seria preferível falar sobre as mulheres artistas de hoje ou mesmo as pós-modernas, mas não me apetece e identifico mais relações entre as escolhidas e o meio envolvente do que as que me são contemporâneas. E para falar delas começo por falar de um homem, um homem do seu tempo artístico e um misógino do século XIX: Baudelaire. Era uma personagem excessiva que estava dividida entre o tempo que vivia (Realismo) e o tempo que se iniciava (Romantismo). E vive como charneira também entre o flanêur e o dandy, entre o que vagueia em busca da vida dos outros, num ócio e tédio mesmo dentro da abundância, e entre o esplendor gratuito. No século de Baudelaire há um retrocesso na emancipação feminina em parte devido à Revolução Francesa; as mulheres emancipadas eram de classes altas. A burguesia resultante da Revolução Francesa foi uma burguesia que procurou domesticar a mulher e circunscrevê-las aos circuitos caseiros. Esta tendência conhece o seu apogeu na época vitoriana, pois isto permitia que as mulheres não levantassem questões nem tivessem o seu papel fora do universo doméstico. Para Baudelaire a mulher tinha de se afastar da Natureza, para ser o mais atractiva e interessante possível, recorrendo à maquilhagem e ao lesbianismo que é uma fuga civilizacional, uma vez que a lésbica é a mulher que na teoria não procria. O ciclo de progressão das mulheres atingia o seu pico aos 13, 14 anos ou quando eram menstruadas. Depois disso avançavam para o casamento e para a gravidez geralmente indesejados e quem pretendesse fugir a esse destino e tivesse manifestações de génio, era vista como uma mulher mascarada de homem. A própria noção de génio é masculina e por isso não se pode coadunar com o universo feminino. Ao ver as mulheres desta forma, com múltiplas faces, Baudelaire ajuda a arte e as mulheres do seu século a serem mais moldáveis e acima de tudo, mais verdadeiras com a realidade. Na realidade as pessoas têm inúmeros alter-egos e podem ser muito diferentes num só corpo.


As guerras napoleónicas tinham feito muitas vítimas entre a população masculina e as mulheres sem recursos, pois dependiam dos homens começam a procurar empregos principalmente como criadas e amas. Sem ter direito a uma carreira, as mulheres de boas famílias casavam bem, as mulheres operárias trabalhavam e a classe média optava pela carreira artística que entre as várias profissões possíveis até nem era muito mal vista, excepto no que diz respeito ao bailado e ao teatro. Para as mulheres havia poucas alternativas a não ser a arte: a final de contas elas desde sempre tinham pintado em casa e bordado… Daí para a pintura profissional era um passo fácil, natural e necessário.


Há várias mulheres que ilustram a história da arte, excluindo as amantes e as modelos. Mulheres que realmente contribuíram para a arte. Uma delas foi Artemisa Gentilleschi, filha de Gentilleschi que não teve uma existência muito pacífica. Tal como o pai, pintava mas talvez por partilhar o espaço e a área de saber com muitos homens, Artemisa foi violada por um aprendiz do pai. O julgamento foi ainda mais penoso, com acusações para o próprio pai e para a vítima: a sua sensualidade desculpabilizaria o culpado. Outra pouco conhecida mas que não levanta controvérsia foi Sofonisba Anguissola, filha de um nobre que deu aos filhos uma educação liberal. Pintava em casa, mas com mestres, tinha muita liberdade de movimentos, fez inúmeras viagens e acaba por entrar na corte espanhola não só como dama de companhia de Isabel de Vallois, mas também como pintora.


Artemisa Gentilleschi


Sofonisba Anguissola


Já no século XIX há três mulheres que foram muito importantes para a pintura: a russa Marie Bashkirtseff, Berthe Morisot e Suzanne Valadon. As três são contemporâneas mas seguem caminhos diferentes na pintura. Marie é uma figura atípica, uma intelectual rica que escolhe um caminho mal definido entre o fora e o dentro, nos limites daquilo que era aceitável para o tempo em questão. Era uma mulher demasiado inteligente para não perceber que a sua pintura era perturbadora uma vez que abordava a questão da igualdade dos sexos, numa altura em que às mulheres estava vedado o ensino artístico com recurso a aulas de modelo de nu. Morreu com apenas 26 anos mas na altura era muito apreciada mesmo em Portugal. O que resta da obra dela é pouco mais do que um diário iniciado quando a pintora tinha 13 anos e que é um fresco do século XIX e mostra um pouco da sua vida. Marie chegava sempre acompanhada por um lacaio negro que lhe segurava as roupas à medida que ela ía caminhando e as ia despindo. Vivia pois uma vida antagónica, uma vez que usufruía das mais valias da vida aristocrata, mas como tinha uma forte consciência social, discutia política a apoiava a igualdade entre sexos.


Marie Bashkirtseff


Berthe Morisot por seu lado é uma figura tipificada: a jovem burguesa, mãe, que borda e se dedica à casa, é recatada e doméstica, casa com um irmão de Manet e não partilha da vida boémia dos absintos de Degas. As suas pinturas abordam invariavelmente o tema da maternidade e ela, que leu o livro de Marie, sabia-se oprimida nessa sua condição burguesa, acomodada. Mas se lhe damos hoje alguma relevância era porque o fazia como os pintores do seu tempo: observava a realidade, expunha o que via, fazia-o com a técnica própria de todos eles e no fundo, ao fazer isto, era uma mulher pintora dentro dos Impressionistas.


Berthe Morisot


Suzanne Valadon de quem já muito se ouviu falar até por causa do filme de Toulouse Lautrec, penso eu, era uma boémia. Filha ilegítima, cedo aprendeu que o berço condicionada as escolhas pela vida fora. Cresceu na rua mas como era muito bonita tornou-se artista de circo. Abandonou o circo por causa de um problema físico e tornou-se modelo (e também amante, diga-se) dos pintores para quem posou. Foi graças a eles que aprendeu a pintar; com Degas aprendeu a observar, por exemplo e na sua obra estava patente a vida boémia que vivia bem como uma certa irreverência. Teve um filho que também se tornou pintor, mas morreu sem escolhas, velha e apenas com o consolo de vagabundos.


Suzanne Valadon

Todas procuravam a dignidade profissional, o reconhecimento do seu trabalho e a maior parte não o conseguiu. Ainda hoje as mulheres pintoras até à segunda metade do século XIX estão esquecidas ou são olhadas de lado. Ainda hoje, falando no geral, a obra de uma pintora não é tão valorizada quanto a instalação ou a vídeo art. Há uma busca não complacente pelo novo e se possível, incompreensível. Porque aquilo que não se compreende passa para a esfera do místico e como não se fala do divino, aprecia-se apenas, a arte de hoje flutua ao sabor dos mercados e dos desinteressados.

domingo, 28 de outubro de 2007

(…)
Eu sou as sete pragas sobre o Nilo e a Alma dos Bórgias
a penar!
Tu, que te dizes Homem! Tu, que te alfaiatas em modas
e fazes cartazes dos fatos que vestes

p'ra que se não vejam as nódoas de baixo!
Tu, qu'inventaste as Ciências e as Filosofias,
as Políticas, as Artes e as Leis,
e outros quebra-cabeças de sala
e outros dramas de grande espectáculo
Tu, que aperfeiçoas sabiamente a arte de matar.
Tu, que descobriste o cabo da Boa-Esperança
e o Caminho Marítimo da índia
e as duas Grandes Américas,
e que levaste a chatice a estas Terras
e que trouxeste de lá mais gente p'raqui
e qu'inda por cima cantaste estes Feitos...
Tu, qu'inventaste a chatice e o balão,
e que farto de te chateares no chão
te foste chatear no ar,
e qu'inda foste inventar submarinos
p'ra te chateares também por debaixo d'água,
Tu, que tens a mania das Invenções e das Descobertas
e que nunca descobriste que eras bruto,
e que nunca inventaste a maneira de o não seres
Tu consegues ser cada vez mais besta
e a este progresso chamas Civilização!
(…)
Ó burguesia! Ó ideal com i pequeno
Ó ideal ricócó dos Mendes e Possidonios
Ó cofre d'indigentes
Cuja personalidade é a moral de todos!
Ó geral da mediocridade!
Ó claque ignóbil do Vulgar, protagonista do normal!
Ó Catitismo das lindezas d'estalo!
Ahi! lucro do fácil,
cartilha-cabotina dos limitados, dos restringidos!
Ai! dique-impecilho do Canal da Luz!
Ó coito d'impotentes
a corar ao sol no riacho da Estupidez!
Ahi! Zero-barómetro da Convicção!
bitola dos chega, dos basta, dos não quero mais!
Ahi! Plebeísmo Aristocratizado no preço do panamá!
erudição de calça de xadrez!
competência de relógio d'oiro
e correntes com suores do Brasil,
e berloques de cornos de búfalo!
(…)
Ó tédio do domingo com botas novas
e música n'Avenida!
Ó santa Virgindade
a garantir a falta de lindeza!
Ó bilhete postal ilustrado
com aparições de beijos ao lado!
E vós ó gentes que tendes patrões,
autómatos do dono a funcionar barato!
Ó criadas novas chegadas de fora p'ra todo o serviço!
Ó costureiras mirradas,
emaranhadas na vossa dor!
Ó reles caixeiros, pederastas do balcão,
a quem o patrão exige modos lisonjeiros
e maneiras agradáveis pròs fregueses!
(…)
Lês os jornais e admiras tudo do princípio ao fim
e se por desgraça vem um dia sem jornais,
tens de ficar em casa nos chinelos
porque nesse dia, felizmente,
não tens opinião pra levares à rua.
Mas nos outros dias lá estás a discutir.
É que a Natureza é compensadora:
quem não tem dinheiro p'ra ir ao Coliseu
deve ter cá fora razões p'ra se rir.
(…)
Larga a cidade e foge!
Larga a cidade!
Vence as lutas da família na vitória de a deixar.
Larga a casa, foge dela, larga tudo!
Nem te prendas com lágrimas, que lágrimas são cadeias!
Larga a casa e verás - vai-se-te o Pesadelo!
A família é lastro, deita-a fora e vais ao céu!
Mas larga tudo primeiro, ouviste?
Larga tudo!
– Os outros, os sentimentos, os instintos,
e larga-te a ti também, a ti principalmente!

(Almada Negreiros, "A Cena do Ódio" - excertos)

quarta-feira, 24 de outubro de 2007









domingo, 21 de outubro de 2007

Babel



Edward Hopper

Portugese Church in Gloucester

1923

Jonhson Museum of Art


(…)
E nos domingos a litania dos perdões, o murmúrio das invocações.

O padre que fala do inferno

sem nunca ter ido lá.

Pernas de seda ajoelham mostrando geolhos.

Um sino canta a saudade de qualquer coisa sabida e já esquecida.

A manhã pintou-se de azul.

No adro ficou o ateu,

no alto fica Deus.

Domingo . . .

Bem bão! Bem bão!

Os serafins, no meio, entoam quirieleisão.

(Carlos Drummond de Andrade, “Igreja”)

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

O Simétrico, Capítulo IV


(...)
"Pousava com alguma precipitação, estendendo a braço direito na direcção do cabide, o chapéu-de-chuva dois anzóis à frente do chapéu de senhora e ao mesmo tempo atirava o saco com a bata para cima do sofá. Não tinha empregada, mas a casa estava impecavelmente limpa, como se nunca lhe tivesse sido tirado o plástico de protecção, como se acabasse de ser enxertada, isto porque o tempo que por lá deambulava era passado quase sem tocar em nada. A não ser nas plantas, mas para isso tinha reservado uma parte entre a cozinha e a varanda e isto em nada perturbava aquela arrumação programada. Quando arrumava, num dia previamente marcado no seu calendário mental e cuja mudança por um ou outro motivo lhe causava algum mal estar, irritação e até surpresa - pois nunca se imaginava nesse dia num outro local a não ser em casa -, deixava tudo de tal forma irrepreensível, que demorava muito tempo a sujar-se de maneira a ter de estipular outro dia na sua memória. Ficava assim liberto e sentia dessa forma ter cumprido um dever de grande importância, tanto que achava merecer uma recompensa e aí sim, saia para apreciar o que se passava lá fora. Embora achasse que o que lhe interessava, tudo o que o podia fazer feliz estava entre os elementos que compunham aquela arrumação e que interagiam com toda a harmonia, não conseguia deixar de sentir um fascínio por esse mundo de caos que começava para lá da janela.


Ao entrar, coordenava estes movimentos com o abrir do correio que tinha apanhado na porta da entrada na respectiva caixa de correio. Nunca esperava nada de extraordinário e quando lhe surgia algo de inesperado como uma carta de quando em quando de um parente muito afastado, ou uma promoção nova com publicidade cheia de cores e letras apelativas, notava um pequeno desagrado por sentir que havia alguém que não atribuía ao seu momento de refeição a importância de que ele estava certo, esse momento possuir. E quando finalmente todas estas amarras triviais haviam sido rompidas pela força da fome, descansava-a no prato de iscas com arroz de tomate, que preferia malandrinho, mas de que, por hábito inquebrável de preparar o almoço por volta das sete da manhã, via-se obrigado a abdicar. Fazia aquela refeição com todo o método exigido a uma última ceia: sempre o mesmo prato, primeiro o arroz já seco, mas ainda com a temperatura certa para uma fome que se recusava a esperar, e depois as iscas libidinosas no seu molho de cebolada, molho esse cujo brilho o enfermeiro espalhava gulosamente sobre o arroz, para o imaginar malandro tal como gostava e como de facto lhe sabia; o copo de vinho, em quantidade parca para uma refeição que durava sempre cerca de 30 minutos. E depois era a deliciosa repetição dos gestos: o desembrulhar do jornal sem o rasgar, o pousar do prato perto do tacho, em cima da boca do fogão, o servir-se com a grande colher – como se se tratasse de um instrumento maçónico – os dois passinhos que o separavam da mesa e que dava como numa dança, o puxar do banco com o pé, enquanto o resto do corpo se preparava para se sentar naquela superfície ainda em movimento, os dois talheres na mão esquerda, juntamente com o prato, o copo na mão direita e tudo junto ao mesmo tempo a assentar arraiais na toalha branca como uma grande festa de aldeia com duração indefinida."

(...)

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

"So So" . Arte e Assim. Revista Mensal - Outubro 07

Josefino Silva avant la letre
Uma nova interpretação do quadro de Malévitch está a mudar o mundo da Arte. O crítico de Arte português Josefino Silva disse recentemente no programa Câmara Clara, enquanto Paula Moura Pinheiro estava distraída a fazer olhinhos aos convidados, que via na tela branca do artista Malévitch a figura da mulher. "O quadro é branco, totalmente branco só pode representar uma mulher porque está relacionado com a pureza. O quadrado dentro do quadrado é a imagem de um mundo complexo personificado pela mulher. Isto jamais aconteceria na cabeça de um homem", disse Josefino. O crítico disse ainda, com as mãos cruzadas no peito e a haste dos óculos no canto da boca que via no quadro um candeeiro com pequenos abat-jours em vidro martelado cor-de-rosa, uma sanefa, um boneco de peluche, uma bicicleta com a corrente solta e Pedro Santana Lopes que tem o dom da ubiquidade e por isso tanto pode estar na Assembleia da República como aqui. "Até que enfim aparecem gajas boas!".
Kasimir Malévitch
Composition : Blanc sur blanc
1918
Museum of Modern Art de New York
Duane em parceria com a Oreo
Duane Hanson está muito orgulhoso da sua Senhora de Supermercado. Depois de várias décadas a ser alvo de chacota em Aachen, a Dona Alice vai poder finalmente fazer um Extreme Makeover e voltará como Princesa Diana para se tornar o novo rosto das bolachas Oreo. Duane afirmou: "a arte para as massas que nós achávamos ter conseguido com a Pop-Arte e com o Hiperealismo, tem agora uma segunda e mais completa oportunidade. Agora é a arte para os lípidos e para os glícidos. Estou muito contente por a Dona Alice ter visto o seu trabalho reconhecido. Garantiram-me mesmo que daqui para a frente só empurrará caixas Multibanco. Mas os lucros serão a dividir. Até que enfim chegaram gajas boas!"

Duane Hanson
Supermarket Shopper
1970
Nachfolgeinstitut, Neue Galerie, Sammlung Ludwig, Aachen.

Wesselmann 08/09
Tom Wesselmann vai lançar a sua linha de roupa interior e roupa de banho. A imagem abaixo é da modelo Valeria Massa que pediu um cachet milionário para posar nua numa alusão ao que será a colecção de Wesselmann. Wesselmann pensa que será um negócio extremamente rentável, uma vez que não faz uso de qualquer material. "Como está na moda ser natural", resolvi projectar um conjunto de peças que serão desenhadas no corpo da própria cliente com um maçarico, de modo a que possam ser levadas de imediato no acto da concepção. A cliente é que terá de colocar um bocadinho de Fenistil gel, mas passa e é arte. E a arte não tem preço.", concluiu. "Até que enfim aparecem gajas boas!"

Tom Wesselmann
Untitled Nude
1980
Hamilton-Selway Fine Art

domingo, 7 de outubro de 2007

Estamos porreiros

Saúde excelente
bem comidos
bebidos
e dormidos

Ninguém está doente
o que já chateia

O Sol aqui é quente
e a chuva fria

Vento em popa
Conveniente

O mar tranquilo
regulado
pra nadar

A hora é exacta
às doze em ponto
é mesmo meio-dia

O melhor que há
passa por cá

Vamos ao teatro
vamos ao cinema
vamos ao ballet

Estamos todos porreiros
estamos todos contentes
olarilolé

Vamos ao algarve
pra falar estrangeiro

Vamos viajar
vamos dar uma volta
num cruzeiro

Vamos ao Tavares
vamos ao Lacerda
a todos os lados
aqui e ali

e vamos à merda*

(Exame Prévio, Mendes de Carvalho)

*desculpem

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

- o carteiro -


Não sei se faz parte da biblioteca visual e até referencial dos leitores da Formiga, mas o ouroboros, a serpente que morde a própria cauda, está presente em inúmeros momentos de figuração da nossa história e arte. O ouroboros tem várias interpretações e que o diga este site . Tantas interpretações que algumas são mesmo contraditórias. No fundo acabam por querer dizer a mesma coisa: a serpente que morde a própria cauda representa a eternidade, o ciclo fértil por se aproximar das formas reprodutivas femininas (o sol era para os povos primitivos, masculino porque os seus raios fecundavam a Terra – feminino). Porém posso também tomá-lo como a forma estéril por excelência, uma vez que fechada em si mesma não permite a entrada de mais nada (tal como o Ser para Parménides). Quando esticada, a serpente representa simplesmente o mal, porque como ainda não encerrou um ciclo, não atinge um nível superior que começa com a vida e acaba com a morte, recomeçando aí mais uma vez. E quanto mais avançamos para a Alquimia, a Maçonaria, o Hermetismo, o Cristianismo, mais variadas são as interpretações. Há até a relação entre o ouroboros e as posições sexuais representando este o chamado 69.


Mas no nosso universo o ouroboros aparece aos olhos mais atentos na imagem da cidade de Coimbra, imagem essa que está relacionada com uma lenda da própria cidade.


imagem da cidade de Coimbra

Ao nível da Arte, a imagem da serpente está muito ligada à Virgem, a São João Evangelista e a São Jorge. São João Evangelista, conta uma escritura, terá morrido envenenado por uma serpente que se encontrava no cálice por onde o santo bebeu (esta é apenas uma das histórias acerca da morte do santo). São Jorge, como sabemos derrotou o dragão, uma passagem actualizada da história de David e Golias. Ao ser representado assim, com o dragão sob os seus pés, Mantegna indica-nos que o bem venceu o mal.


Andrea Mantegna

St George

1460

Gallerie dell'Accademia, Venice

Também de Mantegna é este outro quadro, o quadro de Judite cortando a cabeça de Holofernes que aparentemente nada tem em comum com qualquer história sobre o ouroboros, mas que uma segunda interpretação revela detalhes importantes: a mão de Judite que segura a cabeça do chefe militar está na mesma linha de orientação do quadro que os pés do morto. Em linha recta, temos então a cabeça e os pés, o início e o fim, o alfa e o ómega tal como na serpente que não completou o ciclo. Algo semelhante foi possível observar numa encenação de “À Espera de Godot” em que a primeira parte da peça acabava com o chapéu e as botas lado a lado no palco vazio.


Mantegna
Judith and Holofernes
1495
National Gallery of Art, Washington


No que diz respeito à Virgem, esta referência é imediata: “E viu-se um grande sinal no céu: uma mulher vestida do sol, tendo a lua debaixo dos seus pés, e uma coroa de doze estrelas sobre a sua cabeça. E estava grávida, e com dores de parto, e gritava com ânsias de dar à luz. E viu-se outro sinal no céu; e eis que era um grande dragão vermelho, que tinha sete cabeças e dez chifres, e sobre as suas cabeças sete diademas. (Apocalipse, XII, 1-3)" . Os exemplos artísticos são muitos: Caravaggio e a Madonna dos Palafrerneiros é um retrato muito íntimo da divindade e Cristo e da Mãe. O pequeno Cristo nu é auxiliado pela mãe na tentativa de matar a serpente, como se de uma brincadeira se tratasse. Eles sabem que Cristo, como representante de Deus na Terra, tem poder para destruir o animal que representa o mal e Caravaggio mostrou-o como se fosse uma diversão entre mãe e filho, numa pintura cujo resultado é muito humano.


Caravaggio
Madonna with the Serpent
1606

Galleria Borghese, Rome

Em realação à escultura, e porque sou omissa face a isso, trouxe o exemplo de Artus II Quellinus. Nesta imagem vemos como a Virgem se mantém sobre uma Lua crescente (representação bíblica comum a Dürer e aos maçónicos, por exemplo. No caso de Dürer é retratado o mesmo episódio bíblico que relaciona a Virgem com a serpente e que já referimos em cima).


Artus II Quellinus

Virgin of the Immaculate Conception

1690

O.-L. Vrouwekathedraal, Antwerp


Durer
The Revelation of St John: 10. The Woman Clothed with the Sun and the Seven-headed Dragon

1497-98

Staatliche Kunsthalle, Karlsruhe


Esta lua é carregada por dois querubins. Mãe e filho tentam afastar a serpente que envolve a base da lua, mas vemos pelo peso do filho, de Cristo, que poderia até desiquilibrar a composição, que é ele que apesar de ser ainda criança, mata a serpente e assim afasta o mal. É também uma imagem típica da imagética promovida pela Contra-Reforma, uma vez que aqui o bem (Catolicismo) vence o mal (Protestantismo).


E para quem não quer andar por aí à procura de serpentes em bases de lua, dou dois conselhos: uma pequena igreja em Macinhata do Vouga que tem uma escultura semelhante, o quadro que ontem estava atrás do cardeal patriarca de Lisboa aquando da sua intervenção filmada pelas várias televisões.

domingo, 30 de setembro de 2007

Outono - I


Henri Laurens
Autumn
1948
Tate Gallery





Sir John Everett Millais
Autumn Leaves
1856
Manchester Art Gallery


Outono - III

De que lado viste chegar
o outono? Por que janela
o deixaste entrar? És tu quem
canta em surdina, ou a luz
espessa das suas folhas?
Em que rio te despes para sonhar?
É comigo que voltas
a ter quinze anos e corres
contra o vento até te perderes
na curva da estrada?
A quem dás a mão e confias
um segredo? Diz-me,
diz-me, para que possa habitar
um a um os meus dias.

(Sulcos, Eugénio de Andrade)


Outono - IV

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

- "bis" sem "bravo" -


Tentarei não preencher o blog da formiga com imagens de santos e de pintura dos séculos XVI, XVII e XVIII, que apesar de ficarem sempre bem e darem um ar idóneo e filantropo a qualquer blog, não combinam muito bem com o blogger. Mas não posso deixar de assinalar a minha perplexidade (crescente uma vez que estou em leituras que levam a esse estado), perante a multiplicação de imagens de obras de arte. Passo a explicar: “Os Girassóis” de Van Gogh encontram-se na National Gallery em Londres. Porém, outros girassóis do mesmo pintor encontram-se em Munique, na Neue Pinakothek. Ora, não tendo nenhum dos leitores a idade que Van Gogh teria se estivesse vivo (impossíveis só com o Altíssimo), não nos é possível afirmar qual deles é o verdadeiro quadro, conceito este também curioso em si. Assim, para além de não existir “Os Girassóis”, o “verdadeiro quadro”, seja de Van Gogh, ou de Miguel Ângelo, também não existe, uma vez que para nós o verdadeiro é aquele que nos foi mostrado pela primeira vez. Não posso aceitar outros Girassóis que não aqueles, assim como não posso aceitar outras portas do Baptistério de Florença que não aquelas. Para mim as flores que Van Gogh pintou têm aquela tonalidade, figuraram naquele filme, foram referidas naquele outro livro. Para um americano, um asiático ou um africano, a primeira imagem do quadro pode ter sido outra e por isso não reconhecem a National Gallery como local de culto aos amantes d’”Os Girassóis”, mas antes a Neue Pinakothek. Isto envolve a percepção humana e a forma como é condicionada pela vivência e quase os aspectos psicossomáticos da experiência. Não irei enveredar por aí porque não é a minha área. Embora no caso d’”Os Girassóis” esteja a falar de dois quadros que são diferentes mas têm o mesmo título ou representam a mesma ideia, nos exemplos seguintes a situação muda.


O quadro de Chardin figura não só nas paredes do Staatliche Museen em Berlim, como no Museu do Louvre em Paris. As imagens mostram quase um “descubra as diferenças”. Além disso, o modelo usado por Chardin nestas duas pinturas foi também usado na pintura “House of Cards” existente na National Gallery e numa pintura semelhante na colecção Oskar Reinhart collection em Winterthur. Chardin que tal como Vermeer procurava retratar temas do quotidiano, teve grande sucesso com este quadro e por isso pintou a segunda versão que está no Louvre. Uma delas, nunca se soube qual, foi exibida no Salão de Paris de 1940. A questão coloca-se aqui: qual deles estou eu a ver quando vou ao Louvre? O “verdadeiro”? Pode não parecer relevante (e até nem é, não irá curar os males do mundo), mas a obra de arte guarda a sua essência na não reprodução. Era irrepetível até Warhol talvez.


Chardin
The Draughtsman

1737

Staatliche Museen, Berlin


Chardin
Draughtsman

1737

Musée du Louvre, Paris

Outro exemplo é este “Magdalen of Night Light” de Georges de La Tour. Não se conhece, eu não conheço, a razão para uma segunda versão – igual à primeira – de Georges de La Tour, mas adivinho que sendo este tema muito caro para a França, houvesse necessidade de reproduzi-lo. Um no Louvre, outro em Los Angeles. Embora no caso descrito acima a probabilidade de ao visitar o Louvre ficar a saber da existência de uma segunda versão do quadro na Alemanha, ser muito pequena, neste caso de De La Tour é ínfima, uma vez que na América não houve uma Segunda Guerra Mundial que justificasse a passagem destes quadros de um lugar para outro ou a sua reprodução para não se perderem (nem Chardin adivinharia a Segunda Guerra Mundial), não houve exílio de artistas europeus no século XVII, e este não é um tema muito apreciado pelos americanos. O que justifica a sua presença num museu americano é a aquisição do mesmo por parte deste, ou a doação. Não sendo representativa a arte americana desse século no mundo nem no mercado da arte, é natural que a informação ao visitante sobre a Madalena de De La Tour seja escassa. E escrevo-o com conhecimento de causa.E para que não se pense que estes são casos isolados para gerar um post, deixo mais dois: o Apollo Flaying Marsyas de Ribera (1637), presente no Musées Royaux des Beaux-Arts, Brussels e o mesmo, do mesmo autor, com a mesma data e nome, no Museo Nazionale di San Martino, Naples. Ou então Ary Scheffer com dois The Ghosts of Paolo and Francesca Appear to Dante and Virgil, ambos de 1835, um na Wallace Collection em Londres e outro no Louvre em Paris.


Georges de la Tour

Magdalen of Night Light

1630-35

Musée du Louvre, Paris





Georges de la Tour

Magdalen with the Smoking Flame

1640

County Museum of Art, Los Angeles

domingo, 23 de setembro de 2007

- campestre

- didático

- lúdico

- irónico


quarta-feira, 19 de setembro de 2007

- original soundtrack -


Cenicamente perfeitos, vocalmente irrepreensíveis, com a capacidade de fazer o público tomar partido nas músicas, os Massive Attack estiveram imaculadamente bem nos concertos que deram em Portugal. O que granjeia os aplausos e a a emoção do público são os velhos e conhecidos temas (“Teardrop” muito vaiado, mas “Safe from harm”, na minha opinião um dos momentos mais altos da noite), deixa-nos a pensar como será o novo disco dos Massive Attack. Porque os seus êxitos antigos são perfeitos. Será possível melhorar o que é perfeito?

De qualquer forma, Horace Andy e Deborah Miller fizeram a festa com um dueto para celebrar o fim do Verão. A interpretação de Deborah Miller de Unfinished Sympathy foi de ficar de queixo caído e levar o público ao rubro, a de Horace Andy de Angel impecável, e menos bem, ou pelo menos com intrepretações mais apagadas, a actuação de Liz Fraiser.
Fica aqui Unfinished Sympathy.


I know that i've been mad in love before
And how it could be with you
Really hurt me baby, really hurt me baby
How can have a day without a night
You're the book that I have opened
And now i've got to know much more


The curiousness of your potential kiss
Has got my mind and body aching
Really hurt me baby, really cut me baby
How can you have a day without a night
You're the book that I have opened
And now I've got to know much more

Like a soul without a mind
In a body without a heart
I'm missing every part

(Unfinished Sympathy, Massive Attack)

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

o outro lado...


Antes e durante a Segunda Guerra Mundial muitos artistas viram o seu trabalho ser extraviado, vendido abaixo do preço, apagado da História. Aconteceu com os Modernos por não serem do agrado da ideologia em vigor, mas aconteceu também porque cada artista está destinado a ser reconhecido por uma ou outra obra ou numa ou outra área, independentemente de ser polivalente ou de ter realizado mais obras do que aquelas que geralmente nos são dadas a conhecer. Sabemos que Leonardo da Vinci foi o homem do Humanismo: completo, estudioso, racional, criativo…, mas se nos perguntarem qual a sua obra em concreto, mencionamos a Mona Lisa.


Isso aconteceu, entre outros, com Matisse que conhecemos como pintor, mas que uma mostra no MoMA nos vem alertar para a sua faceta de escultor, curiosamente a partir da própria pintura. Os livros, pelo menos os meus que não consultei nenhum dicionário de artistas, não se refere a Matisse como escultor, mas sempre como pintor. A verdade é que ele esculpia tanto quanto pintava, sem haver períodos alternados de decisão a uma ou outra arte.


Matisse

Blue Nude: Memory of Biskra

1907

The Baltimore Museum of Art, The Cone Collection


Matisse

Reclining Nude I (Aurora)

1907

The Baltimore Museum of Art, The Cone Collection

O MoMA de San Francisco (já não vamos a tempo, é a até 16 de Setembro), e o Baltimore Museum of Art (de 28 de Outubro a 3 de Fevereiro de 2008), mostarm as diferentes facetas de Matisse e acima de tudo, os diferentes meios em que o artista trabalhou e os contactos que manteve com escritores, outros artistas, gente do teatro, coleccionadores, etc... Estas relações estão reflectidas na obra exposta que tenta o compromisso entre a o sonho e a realidade, entre a constante tensão presente na obra de Matisse, e o descanso do mármore, a placidez do acto de posar, as relações entre arte e arquitectura. As obras a que nos referimos aqui, foram realizadas ao mesmo tempo. Outras obras são reflexão das suas viagens.


Quase pré-minimalista na forma como faz escultura, ambíguo e eclético, esta exposição mostra-nos que nem sempre aquilo que parece é; ou melhor, que as coisas não são só aquilo que parecem ser. E Matisse não foi só um pintor fauvista francês.

domingo, 9 de setembro de 2007

Eu sou um "portuga" burro
E tenho mil caravelas na cabeça
Juntou com preto e com índio
Mas no fundo é "portuga"
Com seus sonhos de mar
Seu destino de fado
A eterna espera na praia
E a coragem de enfrentar tormentas


Eu sou "portuga" com meu dinheirinho contado
E meu gosto pela desgraça
Pelo meu corpo peludo
Pelo meu amor pelo acaso
Vou ter um dia uma mulher valente
Que vai ser a leoa da casa
E Portugal, África e Brasil
Vão ser uma grande comunidade


Se fala mais português que japonês, sabiam?
Se fala mais português que japonês, sabia?
E a gente vai se impor no mundo
O vinho, o fado, o porto
Sou triste, quase um "portuga" triste
Mas as vezes bebo e danço
E sou doce como um toucinho do céu


Portugal, meu útero
Acorda com os teus filhos
E vamos embarcar de novo
Nas novas caravelas
Vamos dominar o mundo
Só que de um modo mais belo
Só que de um modo mais belo


A liberdade já chegou em Angola
E vai chegar no Brasil
Mistura a culpa do teu fado
Com a alegria que veio da África
Mas, "portugas", esqueçam
Esse destino de fado
Mas, "portugas", esqueçam
Esse destino de fado


É preciso mudar e lutar
Eu acredito na força do português
No mundo do português burro no mundo
Porque a grande piada é o Brasil…



(http://www.blogger.com/, Cazuza)

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

back to business:

- Um livro ("Meetings" com fotografias de Paul Shambroom)
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- Um fotógrafo
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- Um disco
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- uma música (Somewhere in space, Sun Ra)


- Um grande artigo sobre Sarkozy
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- Um filme
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quarta-feira, 6 de junho de 2007

Luanda, Rio de Janeiro, Pequim, Macau, Kremlin... Lajes
A recente polémica sobre o concurso para funcionários para a base das Lajes que impedia explicitamente a participação no mesmo de candidatos portugueses, apesar dos lugares estarem abertos a todos os países da NATO, levou-me a pensar numa corrida. Pensei se valeria a pena Sócrates correr pelas Lajes ou, como disse o Ministério dos Negócios Estrangeiros desdramatizando a questão, correr por lugares de trabalho temporários e em número escasso.
Talvez não valha uma corrida de Sócrates para Sócrates que tem o seu lugar assegurado por mais dois anos, assim como não valeu para Durão o torcicolo na Fotografia das Lajes (outra vez) quanto à visibiliade e crescimento do país.
Talvez não tenha valido a ninguém a não ser ao próprio a condecoração de Portas por Donald Rumsfeld. Hoje a América distribui armas pelas milícias pobres e famintas de vingança no Irão, com a esperança de que, dotando-as dos meios certos, elas possam começar a desbravar o caminho para uma possível guerra.

Já não se fazem guerras como antigamente, é um facto. O próprio presidente do Irão, referiu-se ao filme “300” como “ataque psicológico à cultura iraniana", obnubilando o facto do exército dos persas (do qual os iranianos vislumbraram com propriedade e conveniência a sua descendência) ter começado por ser um conjunto de cidadãos oprimidos que se revolta contra os Babilónios e acaba por fazer cair o Império Egípcio conquistando-o. Igualmente esquecido que numa das batalhas que antecedeu a batalha de Termópilas, deu origem à Maratona. A célebre Maratona, talvez a prova mais apetecida dos Jogos Olímpicos e aquela que colhe entre os participantes um brilhozinho nos olhos, e que quando ganha faz transformar as gotas de suor em diamantes tal é o número de marcas prontas a patrocinar o vencedor, surgiu de uma batalha. E foram os Persas quem a tornou tão importante: os Persas eram em maior número, cerca de 7 soldados Persas para cada soldado Grego, e não fosse a sagacidade de Dário de contornar a frente de ataque grega que tinha saído vitoriosa do primeiro confronto, e o grego Milcíades nunca se teria lembrado de ordenar a um mensageiro para correr até Atenas (42 km) e avisar as tropas que os Persas contornavam território por mar. O mensageiro deu a mensagem e morreu. Os persas mesmo no mar conseguiram eliminar mais um homem. Mais, que a pesquisa tenha indicado, nenhum grego venceu alguma vez a Maratona nos Jogos Olímpicos da Era Moderna e nem os participantes nem mesmo os medalhados fizeram algum dia o mundo “pular e avançar” como dizia o poeta. Eles bem sonham, mas não é o sonho que comanda a vida, nem a Maratona. É o jogging.
Sempre que Sócrates corre, ou numa Luanda húmida e sufocante a destilar ódio aos portugueses, ou num Rio de Janeiro que incluído nos BRIC sem corridas - deve ter descoberto maravilhas no método Pilates – e das cerca de 10% das famílias brasileiras que detêm à volta de 90% da riqueza do país, quer numa Praça Vermelha fechada propositadamente para o efeito embora na altura da conferência a Rússia estivesse a testar mísseis, o mundo pula e avança. Só que não é o mundo que Sócrates habita. Nem mesmo as partidas de futebol entre Irão e Portugal podem fazer mudanças no seguimento natural do mundo. E se Sócrates corresse cá dentro? E se Sócrates corresse nas Lajes, numa das pistas enquanto caças levantavam voo, numa bonita fotografia para os periódicos e que seria pelo menos algo que realmente o nosso primeiro minsitro fez pelo país. Sócrates seria o nosso Edward Murrow (jornalista). Jornalista??? Lagarto, lagarto, lagarto.