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segunda-feira, 4 de junho de 2007


JORGE DE SENA
2.11.1919 - 4.6.1978

PEQUENO TRATADO DE DERMATOLOGIA
De cada vez que um povo exige liberdade
- oh não bem o povo, mas os grupos que o povo no poder
não inclui na partilha da pele do povo propriamente dito -
os clamores são comoventes pela democracia.
No entanto, é claro, nada pode fazer-se
que não clamar de mão no peito
(a outra coçando nos lugares impróprios),
pois que, em verdade, o poder dos grupos
é sempre o poder dos grupos.

Mas de cada vez que, farto de palavras,
um povo estoura com tais odres rotos,
e faz deles passadores que esguicham
muito menos sangue que o chupado em séculos,
os clamores são, a mais de comoventes, trémulos
de indignação, não já co´a mão no peito
(a outra coçando sempre nos lugares impróprios),
mas exigindo acções colectivas em defesa da ordem,
da justiça, da liberdade. E sanções (e bombas).

Pois que em verdade o poder dos grupos
é sempre o poder dos grupos, e lá dizia o poeta
"qualquer morte de homem me diminui", e o número
de mercenários diminui assim terrívelmente,
neste mundo em que são precisos tantos para manter a ordem,
a justiça, a liberdade, e sobretudo aquelas
que são feitas de pele de qualquer povo. E enfim,
considerando que a circuncisão é altamente uma prática higiénica
e desde há séculos predilecta de Jeová,
talvez que o grupo no poder nos quisesse vender
nem que seja um prepúcio em que investir capital.
30.1.1962 - Poesia -III - edições 70


domingo, 3 de junho de 2007


JORGE DE SENA

O chofer de táxi queixava-se da vida.
Ganha 400$00 por semana, o patrão conta
que ele se arranja do a mais com as gorjetas.
Os meus amigos morrem de cancro,
de tédio, de páginas literárias,
vi um rapaz sem as duas mãos que perdeu
na guerra (e o ortopedista ria-se de que ele
só queria por enquanto "calçar" uma das
que, artificiais, lhe preparou tão róseas).
As pessoas esperam com raiva surda e muita paciência
o autocarro, aumento de ordenado, a chegada
do Paracleto, bolsas de sopa do convento.
Mas o chofer de táxi contou-me que
discutira com um asno e lhe dissera:
"... v.que nesse tempo ainda andava a fugir
de colhão para colhão do seu pai
para ver se escapava a ser filho da puta..."
E é isto: andam de colhão para colhão
a ver se escapam - e muitos não escapam.
E os outros não escapam aos que não escapam.
Poesia III
Lisboa 5/8/1971