terça-feira, 15 de novembro de 2005

PLANO OPERACIONAL DA CULTURA (2)

DE COMO UMA MENTIRA ABSOLUTA SE TRANSFORMA NUMA VERDADE ABSOLUTA, E OFICIAL.

Continuamos às voltas com o Plano Operacional da Cultura, mas são centenas e centenas de páginas para digerir.

Mas continuamos, e não vamos parar, na medida em que uma análise exaustiva deste programa ajuda a compreender a forma como foram tão mal gastos os apoios comunitários, não necessáriamente neste programa, mas estamos a lembrar-nos, por exemplo, do vale do ave.

Ainda um dia havemos de ir não a viana, mas aos programas comunitários de apoio à reconversão do vale do ave, seus intervenientes, beneficiários (nestas coisas há sempre quem ganhe...) e, sobretudo, aqueles que perderam com a má aplicação dos fundos.

Mas, por agora, voltemos ao Programa Operacional da Cultura.

A páginas 69 do relatório referente a 2004, pode lêr-se:

"O número anual de visitantes nos museus apoiados pelo POC foi em 2004 de 809.391, o que representa um decréscimo face a 2003. A conjuntura económica desfavorável continua a condicionar a procura por parte do público, sendo relevante também para este número o facto de alguns museus se encontrarem encerrados ao público devido às intervenções de que estão a ser objecto, e de outros, já inaugurados durante o ano 2004, estarem ainda numa fase de arranque, e as acções de divulgação levadas a cabo não terem ainda elevado os niveis de captação de públicos desejados".

Como se pode avaliar pelo parágrafo citado, todo o texto é propositadamente vago, de forma a fazer passar a ideia de que os museus apoiados pelo POC tiveram uma quebra de visitantes dadas as dificuldades económicas.

Nada mais falso !

Para começar, o relatório refere o número de visitantes em 2004 (809.391), diz que é inferior aos visitantes de 2003, mas, estranhamente, esquece-se de referir quantos visitantes houve em 2003.

Por outro lado, estes visitantes referem-se a que Museus ?

Mais estranho ainda, diz vagamente que alguns Museus estão em obras, outros acabam de abrir (reabrir) ao público, logo tudo muito vago, para que na "espuma" do texto salte a imagem das dificuldades económicas para justificar um menor número de visitantes aos museus apoiados pelo POC.

Na falta de dados concretos deste relatório, lá temos que voltar ao Instituto Português de Museus.

Já em 18 de Agosto deste ano a Formiga Bargante tinha começado a publicar uma série de textos de análise aos visitantes dos Museus directamente dependentes do Instituto Português de Museus.

Assim, e consultados os números disponibilizados pelo IPM, constanta-se que no periodo 1998/2004 10 museus perderam 111.937 visitantes, enquanto 13 outros museus, igualmente dependentes do IPM, ganharam, naquele periodo, 96.673 visitantes.

E mais se pode verificar que o campeão das percas de visitantes foi o Museu do Chiado, que entre 1998 e 2004 perdeu 45% de visitantes, ou seja 26.988, seguido do Museu de Conimbriga que perdeu 31% de visitantes, ou seja 48.612, e o Museu do Azulejo que perdeu 18% de visitantes, ou seja 15.783.

Para afinar mais os números, refira-se que aqueles 3 museus, do Chiado, Conimbriga e Azulejo, somam cerca de 82% de visitantes perdidos, entre 1998 e 2004 !

Portanto, quando "candidamente" se afirma no relatório do Programa Operacional da Cultura referente a 2004 que a quebra de visitantes dos museus apoiados (quais?) se deve às dificuldades económicas, só podemos responder que essa afirmação é falsa, e que serve para legitimar a direcção de Manuel Olaio à frente do Instituto Português de Museus, tentando fazer passar a ideia de que todos os museus estão em quebra de visitantes, quando isso é falso.

O que acontece é que aqueles 3 museus, cada um por suas razões mas de dois deles, pelo menos (Chiado e Azulejo) por razões de má gestão e de ligações nada claras a interesses que nada têm a ver com os interesses dos Museus Nacionais, esses sim, são os responsáveis pelo declinio de visitantes NAQUELES MUSEUS, e não nos museus como um todo.

E assim se passa de uma mentira absoluta (só 3 museus de um universo de 23 estudados é que apresentam quebras significativas de visitantes) a uma verdade absoluta, a de que TODOS OS MUSEUS TÊM QUEBRA DE VISITANTES POR RAZÕES ECONÓMICAS !

E assim se pretende esconder interesses e cumplicidades de alguns, atirando as culpas para cima de todos, e em particular para essa verdade tão difusa, mas tão conveniente, das DIFICULDADES ECONÓMICAS.

Daria para rir, se não fosse tão grave !

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