terça-feira, 15 de novembro de 2005

Posso entrar?

Obrigado ao Público por poupar o neurónio que eu tinha reservado para isso


Jean Honore Fragonard
The Reader
1770-1772
National Gallery of Art, Washington

Há uns anos surgiu em França uma discussão curiosa e que se prendia com uma prática (que há cerca de 4 ou 5 anos chegou ao nosso país) e que consistia na venda de livros, CD's, DVD's, agendas, juntamente com o jornal diário. Em França discutia-se a legitimidade de quem dá as notícias para escolher para o público, para os leitores aquilo que deve ser ou não lido. Que critérios presidiam à escolha de Duras ou de Yourcenar e porquê " A Obra ao Negro" e não "Como a água que corre" (no Belogue também preferimos "A Obra ao Negro", mas se as escolha do jornal tivesse sido o outro título, quem sabe se neste momento eu não detestaria ler Yourcenar?)

O Público fez isso com os livros da colecção Mil Folhas, de capa em tons pastel. A primeira escolha foi para uma pessoa ficar rendida: "O Nome da Rosa" de Umberto Eco. O pessoal passeava o seu livro debaixo do braço com o título para fora e um pouco da ilustração à mostra, sobre o fundo cinza do jornal. Mas depois veio "Siddharta" e "Se numa noite de Inverno um viajante". Italo Calvino foi lido mais tarde quando um amigo, não conformado pela repulsa por "Se numa noite de Inverno um viajante", ofereceu"O Barão Trepador". (O amigo acabou por compreender a relutância).

Há em tudo isto um certo paternalismo; ou seja, é como se os directores de jornais estivessem a dizer:"vamos dar às pessoas o que elas precisam". Acontece que as pessoas nem sempre querem aquilo que os outros acham que é melhor para elas, ou pelo menos gostam de ter a última palavra nesse campo. Muitas famílias compraram a colecção toda, colocaram-na na estante e nunca viram a diferença entre o Calvino do "Barão" e o Calvino de "Se numa noite...".

Lembro-me que no ano de 2004 o mundo ajoelhou-se perante o fenómeno "Código da Vinci". Para a Bertrand foi a salvação do ano, para muitas pessoas, o único livro que leram esse ano. Eu não li. Porque não quero que me digam o que devo ler. Quero detestar Isabel Allende e adorar Robert Graves.

[Nota: Por outro lado, os livros são baratos, mas... nã. Prefiro escolhê-los.]

1 comentário:

formiga bargante disse...

Bravo Beluga e bem vinda ao reino das formigas !